Parkour,
imagem e internet
No Brasil, o parkour chegou pela Internet. Aliás,
foi assim em quase todos os países. Alguns filmes
também entraram em cena. Conhecer e começar
a praticar uma disciplina apenas através da Internet
ou após assistir um filme de ficção
é no mínimo uma novidade. Foi dessa forma
que o parkour foi transmitido pelo mundo. Dessa forma
e, cada vez mais, o parkour distancia-se de competições
para transformar-se em algo para ser mostrado, ser apreciado
como um espetáculo. Isto está longe de ser
a proposta do parkour. Mas como reagir diante de um vídeo
de David Belle, perfeitamente editado, saltando de prédios,
fazendo escaladas, correndo na selva? Essa é uma
experiência empolgante, nos identificamos com ele
e sentimos emoções únicas, queremos
repetir aquilo que vimos e não o que aquilo significa.
Surgem assim milhares de vídeos de parkour. Cada
grupo que se organiza produz imagens em fotos e vídeos
e as divulga na Internet. Repete-se assim a cena que despertou
o interesse, só que agora, o protagonista é
você. É claro que isso não se aplica
a todos, mas trata-se também de uma tendência
no parkour.
Diferentemente de esportes como o futebol que assistimos
a um jogo, ou a ginástica que assistimos a uma
apresentação técnica, no parkour,
assistimos sempre edições dos melhores momentos.
Produzir imagens e selecioná-las, decidir sua disposição
no vídeo, etc, é uma produção
carregada de desejos. O que queremos mostrar quando editamos
um vídeo? E quando criamos um site? Porque cada
grupo de skatistas não tem seu site?
O parkour nasceu para o mundo assim e por enquanto ele
continua sendo transmitido dessa forma. Você não
compete no parkour, você produz um vídeo,
é admirado pelos que assistem e fica querendo saber
as opiniões. É como a maioria dos artistas
que produzem sua arte. Assim como posso preferir um grupo
de música a outro, posso gostar mais de um estilo
de um traceur que o de outro.
O parkour como esporte competitivo perderia bastante dessa
característica. Caso criássemos competições,
com percursos definidos e dando a vitória àquele
que o realiza-se mais rapidamente, perderíamos
em muitos aspectos. A valorização da imagem
no parkour prioriza a cena, a fantasia.
Mas o parkour não é isso. As imagens incríveis
que vemos são fruto de muito treinamento. Uma comparação
com a ginástica olímpica, por exemplo, pode
nos ser útil.
Um atleta de ginástica começará com
movimentos simples. São movimentos básicos
que devem ser executados com perfeição para
que se possa aprender o movimento seguinte. Existem movimentos
que só ira treinar anos depois de ter iniciado
sua prática. Essa é também uma característica
das artes marciais e de tantos outros esportes que existem.
No parkour isso pode ser diferente. Como disse antes,
tendemos a reproduzir aquilo que vemos e não o
que aquilo significa. A produção de imagens
tem seu lado negativo principalmente neste ponto. É
que mesmo sem técnica é possível
saltar de três metros. Ao invés de tentarmos
melhorar a distancia e altura de nosso salto, podemos
filmar um salto sobre qualquer coisa. Ganhamos assim relativa
liberdade, mas perdemos ou nos atrasamos no desenvolvimento
pessoal referente ao parkour. O parkour vai além
de cenas convincentes. Se ficarmos repetindo cenas que
vemos em vídeos e se acharmos que isso é
parkour emburrecemos. Perdemos a chance de criar e de
se desenvolver. Não precisamos valorizar o prazer
do reconhecimento do outro, a satisfação
que isso proporciona. Existem outras coisas que podem
valer mais a pena e que nem por isso deixam de enriquecer
nossa auto-estima. Não precisamos também,
deixar de produzir nossas imagens e divulgá-las.
Mas essa não pode ser a razão pela qual
se pratica parkour. As imagens nos empolgam, nos inspiram,
direcionam o parkour num sentido artístico, mas
vamos treinar que isso é mais empolgante. Abraço.
Extraído de: http://www.leparkourbrasil.com.br