Parkour
para Garotas
Priscila
Caccuri · São Paulo (SP) · 21/8/2008
Alguns
gostam de chamar de esporte do “Homem Aranha”
outros dizem que isso tudo é para fugir do muro
da escola. Mas na verdade, todo praticante de Parkour,
chamado de traceur ou traceuse (feminino), prefere descrever
esta prática como uma atividade física de
transpor obstáculos urbanos ou naturais, movimentando-se
do ponto A ao B da forma mais eficiente possível.
Difícil? Objetivo? Arriscado? Doloroso? Gratificante!
O Parkour, uma variação do termo francês
pra "percurso", além de ser uma tribo
urbana é uma disciplina com influência de
treinamentos militares, ginástica olímpica,
artes marciais e até mesmo de danças. Aliás,
seus movimentos muitas vezes remetem àqueles praticados
na infância, desenvolvendo visão espacial,
testando novas sensações, criando formas
de comunicação que atrai olhares não
por uma causa, mas por uma conseqüência.
A primeira vez que soube desta prática criada
na França por David Belle, foi assim:
“FILHA! Olha essa reportagem! É a sua cara!”.
Insanidade? Bom, eu praticava dança contemporânea
há oito anos, tinha jogado basquete por outros
quatro, talvez minha mãe pensasse que era uma espécie
de dança no concreto. E mal ela imaginava que em
uma semana eu conheceria praticantes de Parkour pelo Orkut,
marcaria um treino no fim de semana seguinte e sairia
sozinha pulando com mais uns 20 garotos. GarotOS.
Fazer Parkour já é estranho, agora imagine
voltar para casa com um hematoma na perna, arranhão
no braço e um sorriso enorme: SUBI NO MURO!
Mamãe ligava: “Filha, tem mais meninas com
você?”
Eu respondia: “Claro, mãe! Tem mais umas
3 aqui!”
Essa resposta demorou dois anos para se tornar verdadeira,
pois agora muitos eventos de Parkour têm acontecido
e reúnem praticantes do país inteiro e até
convidados internacionais. No dia 13/07/2008 ocorreu o
3º Encontro Paulista de Parkour que reuniu representantes
de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Brasília,
Curitiba, Maringá, Florianópolis, Itajaí,
Porto Alegre, Sorocaba, Campos do Jordão, Campinas,
Jundiaí e São José dos Campos, com
presença em número recorde de 10 meninas!
(Havia umas 100 pessoas no evento, enfim!).
A importância dos eventos é que eles aumentam
o convívio, a troca de experiências e o exercício
de cooperação. O que estimula uma prática
independente e contínua, desenvolvendo habilidades
físicas, mentais e comportamentais, como: força,
impulsão, coordenação, observação,
controle, paciência, cooperação, comunicação,
humildade e respeito.
A maioria das meninas inicia seus treinos de Parkour
quando alguém muito íntimo já está
praticando, geralmente o namorado, o irmão, melhor
amiga ou amigo. É natural sentir-se mais confortável
quando acompanhado, mas como o Parkour é uma prática
autônoma e uma disciplina é preciso se desprender
desta "zona de conforto".
No início as garotas têm a impressão
de que o ambiente é totalmente masculino, mas acabam
se surpreendendo com o incentivo dos praticantes, que
se orgulham e vibram com a evolução feminina.
Cria-se um clima amigável entre homens e mulheres,
pois esta convivência saudável é a
base para a concentração.
Na mídia pergunta-se muito sobre a diferença
de força muscular e flexibilidade entre homens
e mulheres, mas essa é uma discussão biológica.
Uma perspectiva mais interessante é analisar o
repertório motor do ser humano que é determinado
culturalmente. Seria o histórico de experiências
do seu próprio corpo. Na infância os meninos
são mais estimulados a subir em árvores,
jogar bola na rua, andam sozinhos mais cedo e é
esse contato com a cidade e com o concreto que mais diferencia:
a experiência e a familiaridade com o espaço.
Um
exemplo clássico: quando crianças em desenvolvimento
estão muito ativas alguns pais têm o costume
de colocar os meninos no futebol para gastarem as energias
e as meninas no balé para saberem contê-las.
Nestes ambientes onde a quantidade de garotos ou garotas
é predominante pode-se dizer, segundo a filósofa
Judith Butler (1993, Bodies that matter), que masculinidades
e feminilidades são construídas a partir
da sedimentação de ações no
cotidiano.
Uma questão pontual são as diferentes maneiras
como homens e mulheres tomam decisões sob os efeitos
de tensão, dor, pressão social e autocobrança.
Pois segundo a historiadora Joan Scott (1996, Gênero:
uma categoria útil para a análise histórica),
o princípio de masculinidade baseia-se na repressão
necessária dos aspectos femininos.
Eles lidam desde cedo com o enfrentamento, a virilidade,
o adversário, o brusco contato corporal e a atividade
constante do corpo. Aliás, a defesa pessoal é
tida mais como um valor do que uma habilidade. E elas
são estimuladas à delicadeza, sensibilidade,
expressividade. Ou seja, em geral os meninos exercitam
mais cedo o controle do corpo quando submetidos a um turbilhão
de emoções intensas.
Todavia, o que torna o Parkour compatível com
garotas nos dias atuais é o fato da cultura social
agora enxergar a coragem, a iniciativa e a independência
como valores não só admiráveis, mas
necessários para homens e mulheres.
No Brasil o Parkour Feminino têm se desenvolvido
em quantidade e principalmente em sua qualidade. É
difícil desafiar os próprios limites quando
os parâmetros são unicamente masculinos e
por isso as traceuses têm se arriscado mais, se
exposto mais e superado mais medos.
Esta atividade física é individual, mas
esta prática como um todo nunca está isolada.
Há sempre uma comunicação com um
conjunto, seja por linguagem corporal ou verbal. Ela é
independente de gênero, raça, cor ou idade,
mas sempre está carregada de especificidades que
nos torna únicos e mais complexos. Viva à
diferença! Trace um percurso diferente.